Faltando uma semana para o primeiro turno das eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) entram na fase decisiva da campanha separados por poucos pontos nas principais pesquisas, com rejeições semelhantes e espaço cada vez menor para conquistar eleitores fora dos dois polos.
As três pesquisas de maior repercussão divulgadas nesta semana colocaram Lula numericamente à frente, mas com diferenças que variam conforme o instituto.
Na Quaest de segunda-feira (21), o presidente marcou 37%, contra 33% de Flávio. Na AtlasIntel/Bloomberg, divulgada na quarta (23), o placar foi de para Lula 45,8% a 43,4% do filho do ex-presidente. Já o Datafolha desta quinta-feira (24) registrou 40% para o petista, enquanto o senador obteve 36% as intenções de voto.
Para além de apontar uma tendência única, as pesquisas mostram uma disputa que se comprimiu ao longo da campanha. No Datafolha, por exemplo, a diferença entre Lula e Flávio era de dez pontos em junho, passou para oito em julho, seis em agosto e está agora em quatro pontos.
A aproximação ocorreu principalmente com o avanço de Flávio. Lula preservou um piso elevado, mas enfrenta dificuldade para ampliar seu eleitorado para além daqueles que se declaram de esquerda, enquanto o candidato do PL encontrou espaço para crescer entre eleitores que depositariam seus votos em outros nomes da direita.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que o voto útil ganhou espaço no discurso das duas campanhas às vésperas da votação.
Continua depois da publicidade
No Datafolha mais recente, Augusto Cury (Avante) aparece com 5%, Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, e Renan Santos (Missão), com 3%. Na Quaest, Cury tem 6%, Caiado, 4%, e Renan, 3%. É nesse contingente que a campanha de Flávio vê uma das principais reservas de votos para a última semana.
Na reta final das campanhas, a tendência é de se intensificar a busca pelo chamado voto estratégico, com Lula e Flávio tentando reduzir o espaço dos candidatos que aparecem atrás dos dois líderes. A concentração é particularmente relevante para Flávio porque boa parte dessas candidaturas está à direita ou ao centro-direita.
Leia mais:
Continua depois da publicidade
Lula tenta trocar o assunto
Para Lula, a última semana começa também como uma tentativa de recuperar o controle do noticiário depois de uma sequência de crises que atingiu o governo e seu entorno político.
O caso Banco Master, os desdobramentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e investigações relacionadas ao INSS ocuparam espaço que o Planalto esperava usar para pautar medidas econômicas e sociais.
Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg desta semana mostrou que 52,3% dos entrevistados consideram que a crise envolvendo o STF prejudica mais Lula, enquanto 20,8% apontam Flávio como o mais afetado. Outros 15,5% disseram que os dois são atingidos igualmente.
Continua depois da publicidade
A avaliação feita por analistas é de que a sucessão de investigações dificultou a estratégia do governo de chegar à reta final discutindo temas como renda, jornada de trabalho e consumo. Diante das perdas, o governo promoveu intensificar a chamada agenda positiva, engajando o eleitor em temas relevantes para aumentar a aprovação da gestão petista.
Apesar de liderar o primeiro turno no Datafolha, o presidente ainda carrega uma avaliação de governo negativa. Segundo o levantamento desta quinta, 40% consideram sua gestão ruim ou péssima, 34% avaliam como ótima ou boa e 24% como regular. A desaprovação pessoal de Lula é de 50%, ante 47% de aprovação.
Entraram na estratégia o reajuste do Bolsa Família, o debate sobre o fornecimento de canetas emagrecedoras pelo SUS e a ofensiva contra as bets, em uma tentativa de mudar o ciclo de notícias.
Continua depois da publicidade
O reajuste de 15,04% do Bolsa Família já cumpriu parte dessa função política ao deslocar momentaneamente as atenções da crise no Supremo. Agora, Lula busca fazer das apostas online outro assunto de apelo direto ao cotidiano.
Leia também:
A campanha passou a apresentar o tema sobretudo pelo impacto das apostas sobre o orçamento e o endividamento das famílias. Lula também criticou as bets durante seu discurso na Assembleia-Geral da ONU e o governo discute novas restrições para o setor.
Esse tipo de iniciativa busca devolver à campanha presidencial temas com tradução mais simples para o eleitor, depois de uma fase dominada por assuntos institucionais e investigações.
O desafio de Lula, agora e nos próximos dias até o segundo turno, é transformar essa mudança de assunto em ampliação efetiva do eleitorado.
Flávio tenta preservar avanço
Do outro lado, Flávio chega à última semana tentando consolidar o avanço registrado desde agosto e atrair eleitores de candidaturas menores da direita.
A estratégia descrita por integrantes da campanha é intensificar o pedido de voto útil. Aliados do senador interpretaram as pesquisas da semana mais como uma estabilidade da corrida do que como uma recuperação de Lula e mantiveram a aposta na migração dos votos atualmente depositados em outros candidatos.
Ao mesmo tempo, a proximidade entre os dois principais nomes aumenta o custo de eventuais erros.
O controle do ciclo de notícias será uma das variáveis centrais dos últimos dias. Para Lula, o risco é uma nova crise interromper outra vez a tentativa de pautar medidas populares. Para Flávio, a estratégia é evitar movimentos que alterem uma dinâmica que lhe permitiu reduzir a distância para o presidente, mantendo a campanha concentrada no antipetismo e no desgaste do governo.
Há, no entanto, limites para a expansão dos dois candidatos.
O Datafolha mostra que Lula e Flávio têm hoje exatamente a mesma rejeição: 45% dos entrevistados dizem que não votariam de jeito nenhum em cada um deles. Na Quaest, os percentuais são ainda maiores e também próximos: Flávio é rejeitado por 56% e Lula por 55%.
Os números ajudam a explicar por que, mesmo com a concentração do voto nos dois polos, nenhum deles conseguiu abrir vantagem consistente no confronto direto.
Segundo turno já começa apertado
As simulações de segundo turno reforçam esse quadro. No Datafolha, Lula teria 47% e Flávio, 45% em uma eventual disputa em 25 de outubro. Na Quaest, Flávio aparece com 42% e Lula com 41%. A AtlasIntel/Bloomberg registra 47,7% para Lula e 47,4% para Flávio. Em todos esses confrontos, a diferença está dentro das respectivas margens de erro.
Isso aumenta o peso do resultado de 4 de outubro. Não apenas pela ordem de chegada, mas pelo tamanho da diferença entre os dois candidatos e pela capacidade de cada campanha de sair do primeiro turno com impulso político para as três semanas seguintes.
Em 2014, Dilma Rousseff abriu oito pontos sobre Aécio Neves no primeiro turno e venceu o segundo por 3,3 pontos. Em 2022, a vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro caiu de 5,2 pontos no primeiro turno para 1,8 ponto na votação final. Para analistas, uma diferença pequena em outubro deixa maior espaço para fatores como mobilização, abstenção e votos brancos e nulos alterarem a disputa seguinte.
Onde ainda há voto em disputa
Os recortes do Datafolha ajudam a mostrar onde os candidatos ainda buscam avançar. Lula mantém vantagem entre mulheres, com 42% contra 33%, e entre católicos, por 45% a 33%. Flávio lidera entre evangélicos, com 47%, contra 27% do presidente. Entre os homens, os dois aparecem tecnicamente empatados, com 39% para Flávio e 37% para Lula.
A vantagem de Lula permanece maior entre quem recebe até dois salários mínimos: 46% a 32%. Mas ela é menor do que a registrada pelo petista sobre Jair Bolsonaro na mesma faixa de renda em 2022, quando o placar era de 57% a 24%. Entre quem recebe de dois a cinco salários mínimos, Flávio aparece agora à frente, com 41%, contra 33% de Lula.
- Campanhas apostam na crise do STF, mas eleitor pouco muda de voto
No Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, o cientista político Murilo Medeiros, da UnB, apontou justamente jovens, moradores do Sudeste, eleitores de renda intermediária e pessoas com ensino médio completo como um grupo de atenção para a reta final, além do contingente que votou em Lula em 2022 e hoje aparece disperso. Para ele, a chamada alienação eleitoral — combinação de abstenção, votos brancos e nulos — também pode alterar o equilíbrio da disputa.

A uma semana da votação, portanto, Lula e Flávio têm menos espaço para mudar estruturalmente a eleição do que para disputar as margens dela.
Para o presidente, a reta final passa por manter temas de renda e consumo no centro do debate e conter o efeito de novas crises sobre a avaliação de seu governo. Para Flávio, o objetivo da campanha é converter a aproximação registrada nas últimas semanas em voto útil entre eleitores da direita e preservar a mobilização do eleitorado que já rejeita a continuidade do PT.
Para os dois, há ainda uma variável impossível de medir apenas pelas pesquisas de intenção de voto: quem efetivamente comparecerá às urnas.
Uma abstenção elevada pode interferir até mesmo na fotografia do primeiro turno. Com os dois campos já fortemente polarizados, não basta manter apoiadores convencidos, as campanhas precisam transformar essa preferência em presença nas seções eleitorais em 4 de outubro.
