A pouco mais de três meses do início oficial da campanha eleitoral, esquerda e direita já dão sinais de que entrarão na disputa presidencial de 2026 com estratégias de comunicação bastante diferentes. Enquanto o campo conservador tende a concentrar sua narrativa em poucos temas de forte apelo emocional, a esquerda busca ampliar o debate para pautas econômicas e sociais, mas enfrenta dificuldades para transformar mensagens mais complexas em conteúdo de alto engajamento nas redes.
A avaliação foi feita pelo cientista de dados Renato Dolci, diretor de Dados da Timelens, e pelo analista de política da XP João Paulo Machado, durante participação no programa Mapa de Risco, do InfoMoney, desta sexta-feira (17).
Para Dolci, a principal diferença está na forma como cada campo constrói sua comunicação digital.
“Quando a gente olha para a direita, percebe um domínio muito maior dessa linguagem das redes sociais. A direita domina o que eu costumo chamar de ‘coreografia do digital’. Existe uma forma de produzir esse conteúdo, militâncias mais organizadas e uma compreensão muito clara de como ocupar esse espaço. Ao mesmo tempo, ela passou a concentrar sua comunicação em debates culturais, de moralidade e de identidade, temas que geram muito engajamento”, afirmou.
Segundo ele, a esquerda segue um caminho diferente ao tentar abordar uma quantidade maior de assuntos e recorrer a explicações mais longas, estratégia que encontra obstáculos na lógica das plataformas.
“A esquerda gasta muito mais tempo contextualizando os problemas. Quando você precisa explicar soberania, democracia ou funcionamento das instituições, você naturalmente perde espaço para mensagens mais simples e diretas. As redes sociais favorecem conteúdos rápidos, enquanto a contextualização exige tempo. Esse é um desafio importante para a esquerda”, disse.
Dolci citou um levantamento realizado por sua equipe para ilustrar essa diferença.
“Quando analisamos as comunicações de 2024, encontramos 476 temas diferentes sendo discutidos pela esquerda brasileira. Na direita eram apenas 68. A internet é um espaço de constância. Quem consegue repetir a mesma mensagem continuamente tende a ganhar mais espaço”, afirmou.
Na avaliação de João Paulo Machado, essa diferença não elimina a importância da campanha tradicional, sobretudo em um país com dimensões continentais e forte influência da política local.
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“Existe um eleitor que continua preocupado com o dia a dia da cidade, com a obra, com o posto de saúde, com o asfaltamento da rua. Para esse eleitor, campanha de televisão, rádio, visitas aos municípios e alianças políticas continuam sendo fundamentais. Já as grandes disputas ideológicas ficam muito concentradas nas redes sociais”, afirmou.
Segundo o analista, as campanhas também passaram a disputar um outro ativo: a identidade do eleitor.
“A direita construiu sua força recente muito em torno do discurso antissistema. O interessante é que o presidente Lula tenta, hoje, ocupar parte desse espaço mesmo estando no governo. Quando faz discursos contra bancos, apostas esportivas ou grandes fortunas, ele procura construir a imagem de alguém que continua enfrentando os poderosos. É uma tentativa de disputar uma linguagem que, durante muito tempo, foi característica da direita”, disse.
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Para Dolci, esse movimento acontece porque as campanhas deixaram de disputar apenas programas de governo e passaram a disputar formas de enxergar o mundo.
“Desde 2018 eu tenho defendido que vivemos processos eleitorais muito mais morais e culturais. O eleitor não escolhe apenas um programa de governo. Ele procura alguém que tenha valores parecidos com os seus e que tome decisões que ele acredita que tomaria se estivesse naquele lugar. A disputa de identidade ganhou espaço sobre a disputa de propostas”, afirmou.
Na visão dos dois especialistas, a tendência é que essa diferença de linguagem permaneça ao longo da campanha de 2026. Enquanto a direita deve seguir apostando em mensagens curtas, confrontos e temas culturais, a esquerda tentará transformar pautas econômicas e sociais em narrativas capazes de mobilizar o eleitor sem abrir mão da contextualização que historicamente marca sua comunicação.
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O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.